Forma musical, e a música ouvida como um todo
Como as seções se organizam e se repetem; quase toda canção cabe em poucas letras, e saber a forma é o que permite tocar uma música de ouvido depois de duas passagens.
Uma frase termina numa cadência. Várias frases fazem uma seção. Várias seções fazem a música. A forma é como as seções se organizam e se repetem, e é o nível em que a música é ouvida como um todo, o nível em que se sabe, sem contar compassos, que "agora vem o refrão". Quase toda canção cabe em poucas letras.
Letras para seções
A convenção é dar uma letra a cada seção diferente e repetir a letra quando a seção volta. A primeira seção é A; uma seção diferente é B; se a primeira voltar, é A de novo. A forma fica sendo a sequência de letras.
A A B A é a forma da canção americana clássica e de muita bossa nova: uma seção que se apresenta, repete, contrasta, e volta. Trinta e dois compassos, oito por seção, e um repertório inteiro cabe nela.
Verso e refrão, ou A B A B, é a forma da canção popular de rádio: o verso conta, o refrão repete, e a alternância é a música. Uma ponte, C, costuma aparecer uma vez antes do último refrão.
A B, duas seções sem retorno, é a forma do choro clássico com três partes e da valsa, em que cada parte volta por repetição interna.
A cadência delimita a frase
Como se sabe onde uma seção termina? Pelas cadências. Uma frase termina numa cadência; quando uma cadência autêntica fecha e a música recomeça em algo que já se ouviu, uma seção acabou. A forma se lê de baixo para cima: as cadências delimitam as frases, as frases delimitam as seções, e as seções desenham a forma.
Duas frases de quatro acordes, a primeira terminando em meia cadência, a dominante, e a segunda igual. Se a segunda terminasse na tônica, as duas juntas seriam uma seção de pergunta e resposta, oito compassos, um A.
Reconhecer a forma de ouvido
Saber a forma é o que permite tocar uma música depois de ouvi-la duas vezes. Não se decora cada acorde: decora-se que há um A de oito compassos que termina na dominante, um A que termina na tônica, um B que vai para o quarto grau, e o A final. Quatro pedaços em vez de trinta e dois compassos, e dois deles iguais.
O exercício é ouvir uma canção contando seções em vez de acordes: onde começa, onde repete, onde muda, onde volta. Na segunda audição, escrevem-se as letras. Na terceira, os acordes de cada seção, que quase sempre são poucos.
A ponte e a coda
Duas seções têm nomes próprios. A ponte é a seção de contraste que aparece uma vez, em geral antes do último retorno, e costuma ir para outro lugar harmônico, o quarto grau, a relativa, uma tonalidade vizinha, antes de preparar a volta com uma dominante. A coda é o que se acrescenta depois do último retorno para terminar: uma repetição da última frase, uma cadência esticada, o turnaround que finalmente não volta.
Uma ponte curta que vai ao quarto grau, passa por uma dominante secundária e termina na dominante, pronta para o A voltar.
O que levar daqui
A forma é a organização das seções, escrita em letras: A A B A, verso e refrão, A B. As cadências delimitam as frases, as frases delimitam as seções, e a forma se lê de baixo para cima. Reconhecê-la é o que transforma trinta e dois compassos em quatro pedaços, e é a habilidade que permite tocar de ouvido depois de duas passagens.