Modulação, e o que separa mudar de tom de passar por ele
A mudança de centro tonal, confirmada por uma cadência; sem ela, um acorde de fora é só um acorde de fora, e o ouvinte sente o degrau sem precisar analisá-lo.
Uma música em dó maior tem, no meio, um acorde de ré com sétima. Pode ser duas coisas. Pode ser uma dominante secundária, o V7 do V, que passa e volta para dó. Ou pode ser o começo de uma mudança: a música passa a estar em sol maior e fica lá. A diferença entre as duas não está no acorde; está no que vem depois. Modulação é a mudança de centro tonal, e ela só existe quando uma cadência confirma o centro novo.
O critério: a cadência
Um acorde de fora da tonalidade, por si, é cromatismo passageiro. A música continua em dó enquanto o ouvido espera dó de volta. Ela passa a estar em sol quando uma cadência em sol acontece, uma dominante de sol resolvendo em sol, e o que vem depois se comporta como se sol fosse casa.
Aqui ré com sétima resolveu em sol, mas sol voltou a dó em seguida: dominante secundária, sem modulação. Compare:
Ré com sétima resolveu em sol, e depois o segundo grau de sol, lá menor, o quinto de sol, ré, e sol de novo. Duas cadências em sol, nenhuma volta a dó: a música modulou. O ouvinte não analisa, mas sente que o chão mudou de lugar.
Como se sai de um tom
Há três maneiras comuns de chegar ao tom novo, e elas diferem no quanto preparam o ouvido.
Pelo acorde comum. Um acorde que pertence aos dois campos serve de porta: ele é ouvido no tom velho e, retrospectivamente, no tom novo. Lá menor é o sexto grau de dó e o segundo grau de sol; passe por ele, siga com a dominante de sol, e a fronteira fica invisível.
Pela dominante direta. Sem acorde comum, a dominante do tom novo aparece e resolve. É mais brusca e mais clara, e é o que faz a maioria das canções ao subir de tom no último refrão.
Pelo semitom. A modulação mais famosa da música popular: a música inteira sobe meio tom, ou um tom, e continua igual. Não há preparação nenhuma, e é o degrau que se sente. Tecnicamente é uma modulação direta; na prática é um efeito de energia, e todo mundo reconhece.
Perto e longe
O ciclo de quintas mede o que uma modulação custa. Tons vizinhos, uma quinta acima ou abaixo, compartilham seis notas de sete, e a passagem entre eles é suave: de dó a sol, ou de dó a fá, basta trocar uma nota.
G maior F maiorA relativa menor também é vizinha, com a mesma armadura. Esses três destinos, a dominante, a subdominante e a relativa, são para onde a música tonal modulou durante duzentos anos, e para onde a canção popular ainda vai quase sempre.
Tons distantes exigem mais: um acorde comum que não há, ou uma cadeia de dominantes, ou um empréstimo modal que abra caminho. De dó maior a mi maior, por exemplo, não há tríade comum, e a modulação precisa de uma ponte.
A armadura muda, ou não
Numa partitura, uma modulação longa costuma trazer uma armadura nova no meio da música. Uma modulação curta, de uma frase, é escrita com acidentes à mão, e a armadura fica a de sempre. A escrita segue a duração da estadia, não a teoria: se a música vai ficar em sol, muda-se a armadura; se vai visitar sol por oito compassos, escrevem-se os fás sustenidos um a um.
O que levar daqui
Modulação é mudança de centro, e o critério é a cadência: sem uma que confirme o centro novo, o que houve foi um acorde de fora passando. Chega-se ao tom novo por um acorde comum, pela dominante direta ou pelo salto de semitom, e o ciclo de quintas diz quais destinos são vizinhos e quais precisam de ponte. A armadura muda quando a estadia é longa; para uma visita, os acidentes se escrevem à mão.