Turnaround, e a volta que soa como consequência
A sequência curta que fecha uma seção e devolve a música ao começo, e por que uma volta bem escolhida faz a repetição parecer inevitável em vez de recomeço.
Uma seção de uma música termina na tônica, e a seção seguinte começa na tônica. Se os dois últimos compassos ficarem parados no acorde de dó, a repetição soa como um recomeço: a música parou e começou outra vez. O turnaround é o que se coloca nesses dois compassos para que a volta soe como uma consequência, um caminho que sai da tônica e chega nela de novo com vontade.
A fórmula básica
O turnaround mais simples é o I-vi-ii-V: tônica, sexto grau, segundo grau, dominante. Quatro acordes, um por tempo ou um por meio compasso, e a dominante final é o que devolve a música ao começo.
Ele funciona porque é uma frase inteira em miniatura. A tônica e o sexto grau são repouso; o segundo grau é afastamento; a dominante é tensão; e a resolução é o primeiro acorde da seção seguinte. O ouvido chega ao começo da repetição já esperando por ele.
Com dominantes secundárias
Troque os acordes diatônicos por dominantes, e cada passo passa a empurrar o seguinte. O sexto grau vira o V7 do II; o segundo grau vira o V7 do V:
Agora as fundamentais descem por quintas o caminho inteiro, lá, ré, sol, dó, e cada acorde é dominante do próximo. A volta ganha urgência: são três acordes de tensão em fila antes do repouso. É o turnaround do blues e de boa parte da música americana da primeira metade do século vinte.
O meio-termo, com o sexto grau menor e o segundo grau em dominante, é o mais comum de todos:
Começando pelo terceiro grau
O primeiro acorde do turnaround pode ser o terceiro grau em vez da tônica. Mi menor divide duas notas com dó maior, então cumpre a mesma função, e evita repetir o acorde em que a seção acabou de terminar:
Esse III-VI-II-V é o turnaround de referência do jazz e da bossa nova. Repare que, lido de outro jeito, ele é dois II-V-I encadeados sem o I do meio: mi menor e lá sete apontam para ré, ré menor e sol sete apontam para dó. A fórmula de três acordes da leitura anterior, aplicada duas vezes seguidas.
Onde ele mora
O turnaround vive nos dois últimos compassos de uma seção que se repete: o fim de um chorus de blues, o fim da parte A de uma canção antes de ela voltar, o fim de um tema antes do solo. Quando a seção termina na tônica e a próxima começa nela, há espaço para um turnaround; quando a próxima seção começa em outro acorde, o turnaround aponta para ele.
Num blues de doze compassos em dó, os dois últimos compassos são o lugar clássico:
A primeira versão volta; a segunda volta com vontade.
O que levar daqui
O turnaround é uma cadência esticada por dois compassos que sai da tônica e volta a ela, e o que o faz funcionar é a mesma coisa que faz funcionar todo o resto: funções em ordem, fundamentais por quintas, dominantes que empurram. O I-vi-ii-V é a fórmula básica, o III-VI-II-V é a do jazz, e as dominantes secundárias são o tempero que se acrescenta conforme o estilo pede. Com ele, a leitura de harmonia funcional fecha o círculo: a frase, a cadência, a preparação e a volta.