Notas estranhas ao acorde, e o que a melodia faz entre as notas certas
As notas da melodia que não pertencem ao acorde, classificadas pelo modo como chegam e saem; boa parte do que soa como acorde estranho é só uma nota de passagem sobre um acorde comum.
Sobre um acorde de dó maior, a melodia toca dó, ré, mi. O ré não pertence ao acorde. Ninguém troca o acorde por causa dele: o ré é uma nota estranha ao acorde, uma nota da melodia que passa entre duas notas certas. A maior parte das melodias é feita disso, e boa parte do que parece um acorde complicado numa cifra é uma nota de passagem sobre um acorde comum.
Classificadas pela chegada e pela saída
As notas estranhas não se distinguem pelo som: um ré é um ré. Distinguem-se pelo como chegam e como saem, por grau conjunto ou por salto, e por onde caem no tempo. Os nomes descrevem esse movimento.
Passagem — chega por grau conjunto e sai por grau conjunto na mesma direção, ligando duas notas do acorde. O ré entre dó e mi.
Bordadura — sai de uma nota do acorde por grau conjunto e volta para ela. O ré entre dois dós, ou o fá entre dois mis.
Apojatura — chega por salto, cai no tempo forte, e resolve por grau conjunto. É a nota estranha que dói: acentuada, dissonante, e depois resolvida.
Sobre dó maior, o lá chega por salto no tempo, e desce para o sol do acorde.
Retardo — uma nota do acorde anterior fica segurada enquanto o acorde muda, e depois desce para a nota certa. É a apojatura preparada: chega por ligadura, não por salto.
Fá, nota do acorde de fá, segurado enquanto o acorde vira dó, e depois resolvido em mi.
Antecipação — a nota do acorde seguinte chega antes do acorde. É o contrário do retardo: a melodia adianta-se, e o acorde a alcança.
Escapada — sai por grau conjunto e resolve por salto na direção contrária. Menos comum, e o nome diz tudo: a nota escapa.
Por que isso importa para quem toca
Duas razões práticas. A primeira é ler cifra: uma melodia que toca fá sobre um acorde de dó não precisa de um acorde de dó com décima primeira; precisa de um acorde de dó e de uma nota de passagem. Quem conhece as notas estranhas simplifica cifras em vez de complicá-las.
A segunda é improvisar: as notas do acorde são os pontos de apoio, e as estranhas são o caminho entre eles. Uma frase feita só de notas do acorde soa como arpejo; uma feita só de notas estranhas soa fora. A melodia vive na mistura, com as notas certas nos tempos fortes e as estranhas entre elas.
A regra do tempo forte
A diferença entre uma nota estranha que soa natural e uma que soa errada está quase sempre no tempo. Passagens e bordaduras vivem em tempo fraco, entre as notas do acorde; apojaturas e retardos vivem em tempo forte, e por isso doem, e por isso precisam resolver. Uma nota estranha em tempo forte sem resolução é o que o ouvido chama de nota errada.
Sobre dó maior: mi e sol são do acorde e caem nos tempos; fá e lá são passagens e caem entre eles. Troque a ordem, fá e lá nos tempos, e a mesma sequência de notas soa como se o acorde estivesse errado.
O que levar daqui
Notas estranhas ao acorde são as notas da melodia fora do acorde, e se classificam pela chegada e pela saída: passagem e bordadura por grau conjunto em tempo fraco, apojatura e retardo em tempo forte com resolução, antecipação adiantando o acorde seguinte. Conhecê-las simplifica cifras, organiza a improvisação, e explica por que a mesma nota soa certa num tempo e errada no outro.