Ritmos brasileiros, e o que distingue um do outro
Samba, baião, xote, maracatu e frevo lidos pelo que os distingue, onde cai o acento e como o pulso se divide; cada um tem um desenho de palma que cabe em dois compassos, e é por ele que se começa.
A mesma sequência de acordes serve a um samba, a um baião, a um xote. O que os distingue não está na cifra: está em onde cai o acento e em como o pulso se divide, e isso mora na mão direita do violão, no baixo e na percussão. Cada ritmo tem um desenho que cabe em dois compassos de dois por quatro e que se aprende batendo palma, antes de qualquer partitura.
2/4O pulso e a subdivisão
Quase todos esses ritmos se escrevem em dois por quatro: dois pulsos por compasso, e cada pulso dividido em quatro semicolcheias. As semicolcheias são a régua; o ritmo é qual delas recebe ataque e qual recebe acento.
Oito semicolcheias por compasso, todas iguais: é o chocalho, o pandeiro abafado, o triângulo. Sobre essa régua cada gênero desenha o seu acento.
Samba
O samba acentua o segundo pulso: o surdo marca o dois, grave e longo, e o um fica mais leve. Sobre isso, a célula que dá o balanço é a de semicolcheia, colcheia, semicolcheia, que acentua o meio do pulso.
A segunda versão, com a célula nos dois pulsos, é o tamborim; a primeira, com o segundo pulso liso, é a mão direita do violão. O que faz samba é o acento no dois e a nota que atravessa o meio do tempo; sem os dois, é uma marcha.
Baião
O baião acentua o um e o último oitavo do compasso: o zabumba bate forte no primeiro pulso e de novo na segunda metade do segundo, e o espaço entre os dois é o que dá o gingado.
Semínima pontuada e colcheia: o acento no um, e o segundo ataque no "e" do dois, adiantando o compasso seguinte. Por cima, o triângulo em semicolcheias e a zabumba com o abafado no dois. É o desenho de palma mais fácil de todos e o mais reconhecível.
Xote
O xote é o baião andando devagar, com o acento nos dois pulsos e a subdivisão arrastada: as colcheias não são iguais, a primeira de cada par dura um pouco mais que a segunda, e é isso que faz o passo de dança.
Escrito, o xote parece uma marcha lenta; tocado, as colcheias balançam. É um caso em que a partitura mente por omissão, e o desenho de palma diz mais que ela: um, dois, um, dois, com o corpo indo para o lado em cada um.
Maracatu e frevo
O maracatu de baque virado acentua o um com peso, nas alfaias, e coloca uma resposta na última semicolcheia do compasso, que puxa para o próximo. O andamento é médio e a sensação é de marcha pesada que empurra para a frente.
O frevo é a mesma escrita em dois por quatro num andamento muito rápido, com a síncope nos metais, semicolcheia, colcheia, semicolcheia, e o acento do baixo nos dois pulsos. É o samba de pernambuco acelerado até virar corrida, e a diferença para o samba está no andamento e na ausência do surdo no dois.
Como começar
Não pela partitura. Pelo desenho de palma: bata o pulso com o pé e a célula com as mãos, dois compassos, até sair sem pensar. Depois transfira a célula para a mão direita do violão, mantendo os acordes da música; a cifra não muda. Só então leia a partitura, que vai confirmar o que as mãos já sabem.
O que levar daqui
Os ritmos brasileiros se distinguem pelo acento e pela subdivisão, não pela harmonia: o samba acentua o dois e atravessa o meio do pulso, o baião acentua o um e o último oitavo, o xote arrasta as colcheias, o maracatu pesa no um e responde na última semicolcheia, o frevo é a síncope em corrida. Cada um cabe num desenho de palma de dois compassos, e é por ele que se começa.