Teoria Musical

Síncope, e o acento que cai onde o pulso não está

O acento deslocado para fora do pulso, que só existe contra uma métrica estabelecida e é o mecanismo rítmico de quase toda a música popular brasileira.

iniciante · prático · formal · 3 conceitos

Conte "um, dois, um, dois" batendo o pé. Agora cante uma nota que entre entre o um e o dois, e que fique ali, atravessando o dois sem atacar de novo. Você acabou de fazer uma síncope: um acento no lugar onde o pulso não está. É isso, e só isso, e é a base de quase toda a música popular brasileira.

O pulso primeiro

A síncope só existe contra uma expectativa. Se não há pulso estabelecido, não há lugar "errado" para o acento cair, e o que se ouve é um ritmo qualquer. Por isso ela precisa de duas camadas: uma que mantém o pulso, o pé, o surdo, o contrabaixo, e outra que o contradiz.

Esse é o pulso: nada deslocado, um ataque por tempo. Tudo o que vem abaixo se mede contra ele.

O deslocamento

Divida cada tempo em dois e ataque na segunda metade, segurando através do tempo seguinte:

Colcheia, semínima, colcheia. A semínima começa no "e" do um e termina no "e" do dois; o tempo dois passa no meio dela, sem ataque. É a síncope mais simples que existe, e é a célula que aparece em tudo, do samba ao funk.

Escrita com ligadura, para que se veja o tempo dois no lugar dele:

Mesmo som, outra grafia. A segunda é mais fácil de ler em compassos cheios, porque cada tempo fica visível; a primeira é mais curta. As duas estão corretas, e as duas são síncopes.

Atravessando a barra

O deslocamento pode empurrar uma nota para dentro do compasso seguinte. Ela começa no último "e" de um compasso e dura até o primeiro tempo do próximo, e o tempo forte passa sem ataque:

Aqui a ligadura é obrigatória, porque nenhuma figura pode atravessar a barra. E o efeito é o mais forte de todos: o tempo um, o mais previsível do compasso, chega em silêncio de ataque. O ouvido sente o pulso e sente a nota contradizendo-o ao mesmo tempo.

Com pausa

A síncope também nasce de uma pausa no tempo forte. O ataque cai depois dela, no contratempo, e é o único ataque do tempo:

Pausa, colcheia, pausa, colcheia: só contratempos. É a levada da mão direita em muito acompanhamento de violão, e o que a torna síncope é a pausa que deixa o pulso sem ataque.

A célula brasileira

Junte o deslocamento e a subdivisão em semicolcheias e sai a célula que organiza o samba, o choro e o maxixe: semicolcheia, colcheia, semicolcheia, que acentua o meio do tempo.

O primeiro tempo tem três ataques, e o do meio é o mais longo; o segundo tempo tem dois iguais. Toque isso sobre um pulso de dois e a levada aparece sozinha. Não é preciso teoria para reconhecê-la: é a diferença entre um samba e uma marcha, tocados no mesmo andamento.

O que levar daqui

Síncope é um acento fora do pulso, e por isso precisa de um pulso para existir. Ela se escreve com a nota que começa no contratempo e segura através do tempo, com a ligadura quando atravessa a barra, e com a pausa quando o tempo forte fica em silêncio. A célula de semicolcheia, colcheia, semicolcheia é a forma brasileira dela, e o andamento não tem nada a ver com isso: a levada é onde os acentos caem, não quão rápido o pulso passa.