Ritmo harmônico, e a velocidade com que os acordes mudam
A velocidade com que a harmonia muda é uma decisão separada da velocidade da música; acelerá-la antes de uma cadência é um dos sinais mais confiáveis de fim de frase.
Duas músicas no mesmo andamento, com os mesmos acordes. Numa, cada acorde dura um compasso; na outra, dois. Elas não soam parecidas: a segunda é mais calma, a primeira anda mais, e nenhuma das duas mudou de velocidade. O que mudou é o ritmo harmônico, a velocidade com que a harmonia muda, e ele é uma decisão independente de tudo o mais.
Uma camada própria
O ritmo da melodia diz quando as notas atacam. O andamento diz quão rápido o pulso passa. O ritmo harmônico diz quando os acordes mudam, e pode ser mais lento que a melodia, quase sempre, ou mais rápido, raramente.
As duas progressões têm os mesmos quatro acordes na mesma ordem. Na primeira, cada um ocupa dois lugares; na segunda, um. Toque-as no mesmo andamento e a segunda parece ter pressa. Nenhum acorde mudou; mudou a frequência.
A aceleração antes da cadência
O uso mais importante do ritmo harmônico é sinalizar o fim de uma frase. Muitas músicas mantêm um acorde por compasso ao longo de uma frase e, nos dois últimos compassos, colocam dois acordes por compasso. A harmonia acelera, e o ouvido entende que a frase está chegando ao fim antes de a cadência chegar.
Aqui a cadência ii-V ou IV-V costuma vir apertada, dois acordes onde antes havia um, e a tônica final volta ao ritmo largo. É o mesmo mecanismo do turnaround: a volta ganha urgência porque os acordes se apertam, não porque o andamento sobe.
O ritmo harmônico e o estilo
Cada gênero tem um ritmo harmônico típico, e ele é parte do que faz o gênero soar como soa.
O rock e o folk mudam devagar: um acorde por compasso, às vezes por dois, e muitas músicas inteiras com quatro acordes. A bossa nova e o jazz mudam rápido: dois acordes por compasso é a norma, e o II-V-I cabe em dois compassos. O choro muda mais rápido ainda, e o samba-canção fica no meio.
Essa sequência, a dois acordes por compasso, é bossa nova; a um acorde por compasso, é balada. Os acordes são os mesmos.
Acordes de passagem e o ritmo
Quando a harmonia acelera, os acordes extras costumam ser de passagem: diminutos entre dois graus, dominantes secundárias antes de um grau, o sexto grau dividindo um compasso com a tônica. Eles preenchem o compasso sem mudar a frase, e é por isso que a análise os lê como ornamento, não como estrutura.
Dois compassos, quatro acordes, e a estrutura continua sendo I, ii, V. O diminuto é o ritmo harmônico enchendo o espaço.
Escrever e tocar
Quem arranja decide o ritmo harmônico como decide o andamento: de propósito. Tirar acordes de uma cifra apertada é a maneira mais rápida de acalmar uma música; pôr acordes de passagem numa cifra larga é a maneira mais rápida de dar movimento. E quem acompanha precisa saber onde os acordes mudam antes de saber quais são: a mudança errada no lugar certo incomoda menos que a certa no lugar errado.
O que levar daqui
O ritmo harmônico é a velocidade com que os acordes mudam, independente do andamento e do ritmo da melodia. Ele acelera antes das cadências, e essa aceleração é um dos sinais mais claros de fim de frase; ele distingue gêneros que usam os mesmos acordes; e os acordes que ele acrescenta ao apertar são de passagem, ornamento sobre uma estrutura que não mudou.