Substituição de trítono, e o baixo que desce por semitom
Trocar uma dominante pela dominante a um trítono de distância, que compartilha com ela o trítono interno; é o que transforma um II-V-I em movimento cromático descendente no baixo.
A dominante de dó é sol com sétima, e o que faz dela dominante são duas notas: si e fá, o trítono. Existe outro acorde dominante com o mesmo trítono: ré bemol com sétima, cujas notas são ré bemol, fá, lá bemol e dó bemol. Fá é fá; dó bemol é si com outro nome. Os dois acordes têm o mesmo par de notas que pede resolução, e por isso um pode ocupar o lugar do outro. Isso é a substituição de trítono, e é a marca registrada da bossa nova.
Por que funciona
As fundamentais dos dois acordes estão a um trítono de distância: de sol a ré bemol são seis semitons. E o trítono interno é o mesmo, com as funções trocadas: o si, que era terça de sol, vira sétima de ré bemol, grafada dó bemol; o fá, que era sétima de sol, vira terça de ré bemol.
Como o trítono resolve do mesmo jeito, si para dó e fá para mi, o acorde substituto leva a música ao mesmo lugar. O que muda é a fundamental, e com ela o baixo.
O baixo que desce
No II-V-I, as fundamentais descem por quintas: ré, sol, dó. Troque o sol com sétima por ré bemol com sétima e as fundamentais passam a descer por semitom: ré, ré bemol, dó.
É esse baixo cromático descendente que se ouve em tanta bossa nova. A frase não perdeu nada, a preparação, a tensão e o repouso estão lá; o caminho do baixo é que ficou liso, e a cor do acorde de tensão ficou mais escura, porque ré bemol com sétima está muito mais longe de dó maior no ciclo de quintas do que sol.
Em qualquer dominante
A substituição vale para qualquer acorde dominante, não só para o quinto grau. Uma dominante secundária também tem substituta: o V7 do II em dó maior é lá com sétima, e a substituta dele é mi bemol com sétima, a um trítono de lá.
Dó, mi bemol sete, ré menor sete, ré bemol sete, dó. Duas substituições em fila, e o baixo desce por semitons do começo ao fim: mi bemol, ré, ré bemol, dó. Encadeie e a música anda de dominante em dominante por uma escada cromática.
Como escrever
A substituta se escreve como acorde dominante sobre a nota a um trítono da dominante original, e o algarismo que a descreve é bII7, ou subV7 na notação de jazz: um acorde dominante construído sobre o segundo grau abaixado. A grafia da sétima segue o acorde, não a tonalidade: em ré bemol com sétima a sétima é dó bemol, ainda que a nota seja o si que o ouvido conhece. A cifra abrevia, e escreve Db7; a partitura, se escrita, diz dó bemol.
O que levar daqui
Dois acordes dominantes a um trítono de distância compartilham o trítono interno, com terça e sétima trocadas, e por isso resolvem no mesmo lugar. A substituição troca um pelo outro, e o resultado prático é um baixo que desce por semitom em vez de saltar uma quinta. Vale para o quinto grau e para toda dominante secundária, e encadeada produz a escada cromática que atravessa a harmonia da bossa nova.