Teoria Musical

O II-V-I, e por que três acordes bastam

Preparação, tensão e repouso em três acordes; a sequência mais frequente da música popular, o que a faz funcionar, e como reconhecê-la em qualquer cifra.

prático · formal · 4 conceitos

Pegue a cadência autêntica, dominante para tônica, e coloque um acorde na frente para preparar a dominante. O acorde que a tradição escolheu é o segundo grau, e o resultado tem nome próprio: II-V-I. É a sequência mais frequente do jazz, da bossa nova e de boa parte da música popular, e quem a reconhece de ouvido lê uma cifra inteira em fórmulas.

Três funções, três acordes

O segundo grau é subdominante: afasta da tônica sem tensionar. O quinto grau é dominante: tensiona. O primeiro grau é tônica: repousa. O II-V-I é a frase inteira da harmonia tonal, afastamento, tensão, repouso, no menor número de acordes em que ela cabe.

Em tétrades, os três acordes têm qualidades fixas, e são elas que o ouvido reconhece: menor com sétima, dominante, maior com sétima maior.

Por que funciona tão bem

Duas coisas acontecem ao mesmo tempo, e a força vem das duas juntas.

As fundamentais descem por quintas: ré, sol, dó. É o trajeto do ciclo de quintas, o movimento de baixo que o ouvido aceita como o mais natural, porque cada acorde está no lugar de dominante do seguinte.

As vozes de cima quase não se mexem. A sétima de ré menor, dó, desce um semitom para si, que é a terça de sol com sétima. A sétima de sol, fá, desce um semitom para mi, que é a terça de dó maior. Enquanto o baixo salta, as vozes caminham por semitom, e é esse contraste que faz a sequência soar inevitável.

Em qualquer tonalidade

A fórmula é por graus, então serve para as doze tonalidades. Em fá maior o II-V-I é sol menor, dó com sétima, fá maior com sétima maior; em ré maior é mi menor, lá com sétima, ré maior com sétima maior.

Toque os três em sequência, cada um na sua tonalidade, e repare que a sensação é a mesma: só a altura mudou. É por isso que um músico não decora "sol menor, dó sete, fá maior"; decora II-V-I e transpõe.

Em tom menor

O II-V-I menor usa os mesmos graus com as qualidades do tom menor: o segundo grau vira meio-diminuto, o quinto continua dominante, e o primeiro vira menor.

O quinto grau é maior mesmo em tom menor, porque é a sensível dele que puxa para a tônica; sem ela, a dominante não domina. É o mesmo mecanismo do tom maior com um acorde de partida mais escuro.

Reconhecer numa cifra

Procure um acorde dominante e olhe o que vem antes e depois. Se antes há um acorde menor com sétima uma quarta abaixo dele, e depois um acorde uma quarta acima, é um II-V-I, esteja ou não na tonalidade da música. Metade das cifras de bossa nova são cadeias de II-V-I encadeados, cada um apontando para um centro diferente:

Mi menor, lá sete apontam para ré; ré menor, sol sete apontam para dó. Dois II-V-I em sequência, o primeiro deles inteiro fora da tonalidade de chegada, e o ouvido segue sem esforço porque a fórmula é a mesma.

O que levar daqui

Três acordes, três funções, um trajeto de fundamentais por quintas e vozes que caminham por semitom. O II-V-I é a cadência autêntica com preparação, e a sequência que mais se repete na música popular. Reconhecê-lo transforma uma cifra longa em poucas fórmulas, e as dominantes secundárias da próxima leitura são o que acontece quando o V de um II-V-I aponta para um grau que não é o primeiro.