Acordes de sexta, e o repouso que a sétima não dá
Uma sexta somada à tríade, que soa como repouso onde a sétima maior soaria como cor; o final de música por excelência na bossa e no choro, e o acorde que a cifra confunde com o menor com sétima da relativa.
Uma tríade maior é repouso, mas é um repouso simples demais para terminar uma bossa nova. Some a sétima maior e ganha-se cor, mas a sétima maior é uma nota a um semitom da fundamental, e ela não descansa de todo. Some, em vez dela, a sexta, e o acorde repousa com cor: é o acorde de sexta, e é o final de música por excelência de metade do repertório brasileiro.
Quatro notas, nenhuma tensa
Dó com sexta tem dó, mi, sol e lá. As quatro notas pertencem à escala de dó maior, nenhuma forma semitom com a fundamental, e não há trítono. É um acorde que não pede nada, e é por isso que serve para terminar: a música chega nele e para.
Compare com o maior com sétima maior, dó, mi, sol e si. O si está a um semitom do dó, e por mais bonito que soe, ele mantém o acorde um pouco no ar.
Toque os dois como último acorde de uma frase. O primeiro termina bonito; o segundo termina.
A sexta com a nona
A bossa nova quase nunca para na sexta sozinha: acrescenta a nona, e o acorde de repouso vira dó, mi, sol, lá e ré.
A barra aqui não indica baixo, ao contrário do que a barra faz em quase toda outra cifra: "6/9" é o nome de uma qualidade, a sexta e a nona juntas, e o baixo continua sendo a fundamental. É o acorde final de incontáveis gravações dos anos sessenta, e o som de "acabou" no violão de João Gilberto.
A sexta menor
O acorde menor também aceita a sexta, e nele a sexta é maior sobre a terça menor: lá menor com sexta tem lá, dó, mi e fá sustenido.
O fá sustenido vem da escala menor melódica, ou do modo dórico, e dá ao acorde menor um repouso com um leve brilho. É o acorde de tônica menor de muito choro e de muito jazz, e é também um acorde de subdominante menor com uma nota extra, o que o torna o acorde de passagem favorito de quem harmoniza uma descida.
O mesmo acorde, dois nomes
Dó com sexta tem dó, mi, sol, lá. Lá menor com sétima tem lá, dó, mi, sol. São as mesmas quatro notas, e o que decide qual acorde é qual é o baixo e o contexto: com dó embaixo, num lugar de tônica, é dó com sexta; com lá embaixo, num lugar de sexto grau, é lá menor com sétima.
A cifra escolhe pelo que ajuda a ler. Numa cadência em dó, escrever dó com sexta diz "repouso"; escrever lá menor com sétima diz "sexto grau, a caminho de algum lugar". Mesmo som, leitura diferente, e a leitura é o que se toca.
O que levar daqui
O acorde de sexta soma a sexta à tríade, e o resultado repousa com cor porque nenhuma nota dele forma semitom com a fundamental nem trítono com outra. Com a nona, é o acorde final da bossa nova; na forma menor, é uma tônica menor com brilho e um acorde de passagem. As mesmas quatro notas são o menor com sétima da relativa, e o baixo e o contexto dizem qual dos dois se ouve.