Empréstimo modal, e a cor que vem do homônimo
Acordes tomados da tonalidade homônima, que trocam a cor de um grau sem mudar de centro; o quarto grau menor numa música em maior é o mais frequente da MPB e o mais fácil de ouvir.
Uma música em dó maior, e no meio dela um acorde de fá menor. Fá menor não está no campo de dó maior; está no campo de dó menor. A música não mudou de tonalidade: ela emprestou um acorde do homônimo por um compasso e devolveu. Isso é empréstimo modal, e é um dos recursos mais frequentes e mais reconhecíveis da canção brasileira.
De onde vêm os acordes emprestados
O homônimo menor de dó maior é dó menor, e o campo dele tem sete acordes, quase todos diferentes dos de dó maior:
Qualquer um deles pode ser emprestado. Na prática, quatro são usados a toda hora, e cada um tem um nome que diz o que aconteceu com o grau:
- iv — fá menor: o quarto grau, que era maior, vira menor.
- bVI — lá bemol maior: o sexto grau, com a fundamental abaixada.
- bVII — si bemol maior: o sétimo grau, abaixado e maior.
- bIII — mi bemol maior: o terceiro grau abaixado.
O bemol antes do algarismo não é enfeite: ele diz que a fundamental desceu um semitom em relação ao grau diatônico. Sexto grau de dó maior é lá; o emprestado é lá bemol, e a grafia carrega isso.
O quarto grau menor
O empréstimo mais comum é o quarto grau menor, e vale conhecê-lo pelo som antes de pelo nome. Toque fá maior seguido de dó maior, e depois fá menor seguido de dó maior:
A diferença é uma nota: o lá do fá maior vira lá bemol no fá menor, e esse lá bemol desce um semitom para o sol do acorde de dó. É uma cadência plagal com uma nota escurecida, e o efeito é de despedida, de suspiro. Está em incontáveis canções, quase sempre logo antes do fim de uma frase.
O sexto e o sétimo abaixados
Lá bemol maior e si bemol maior, em dó maior, costumam aparecer juntos, numa descida por tons até a tônica:
É uma sonoridade de rock e de trilha sonora, aberta e sem sensível: si bemol maior chega à tônica por baixo, por tom inteiro, e não por semitom. O bVI também serve de acorde de surpresa depois da dominante, no lugar do sexto grau da cadência de engano, com o mesmo efeito de frase que ganha mais um pedaço e uma cor mais escura.
A função continua a mesma
O acorde emprestado herda a função do grau que substitui. Fá menor é subdominante, como fá maior; lá bemol maior faz o papel do sexto grau; si bemol maior faz um papel próximo ao da dominante, sem a sensível. Por isso o empréstimo não desorganiza a frase: a sequência de funções segue igual, e só a cor de um acorde mudou.
É também por isso que o empréstimo não é modulação. A tônica continua sendo dó, e o acorde seguinte ao emprestado costuma ser diatônico de novo. O ouvido registra uma sombra que passa, não uma mudança de lugar.
O que levar daqui
Empréstimo modal é tomar um acorde do homônimo menor, por um compasso, sem mudar de tônica. Os mais usados são o quarto grau menor, o sexto e o sétimo abaixados e o terceiro abaixado, e cada um herda a função do grau que substitui, então a frase continua a mesma com outra cor. O bemol no algarismo diz que a fundamental desceu, e a grafia com bemóis diz de onde o acorde veio.