Teoria Musical

Enarmonia, e por que o mesmo som tem dois nomes

Duas grafias para o mesmo som, e a razão de a escolha entre elas não ser indiferente; o nome de uma nota carrega a função dela.

iniciante · prático · formal · 3 conceitos

Dó sustenido e ré bemol são a mesma tecla. Fá sustenido e sol bemol também. Duas notas que soam igual e se escrevem diferente chamam-se enarmônicas, e a pergunta óbvia é por que alguém se daria ao trabalho de manter dois nomes para uma coisa só. A resposta é que o nome não descreve o som: descreve o que a nota está fazendo.

Onde a equivalência aparece

Toda tecla preta tem dois nomes, um com sustenido e um com bemol. As brancas também, embora se use menos: si sustenido é dó, fá bemol é mi, mi sustenido é fá. E os intervalos herdam a mesma dupla identidade: de dó a fá sustenido são seis semitons, e de dó a sol bemol também.

Quarta aumentada e quinta diminuta: o mesmo som, dois nomes, e a diferença entre eles não é pedantismo.

O nome vem da escala

Uma escala usa cada letra uma vez. Isso decide a grafia de todo acidente: a escala de ré maior tem fá sustenido, não sol bemol, porque a letra sol já está ocupada pelo quarto grau e a letra fá precisa de uma nota.

A escala de ré bemol maior faz o oposto: tem sol bemol, não fá sustenido, porque as letras precisam seguir em ordem a partir do ré bemol.

Então qual nome usar depende da tonalidade em que se está. Numa música em ré maior, a tecla preta entre fá e sol chama-se fá sustenido; na mesma música transposta para ré bemol maior, chama-se sol bemol. O som é o mesmo; o nome diz a qual escala a nota pertence.

O nome carrega a direção

Há uma segunda razão, mais musical. Um sustenido, por convenção e por tendência, sobe: é uma nota elevada, e o ouvido espera que ela resolva um semitom acima. Um bemol desce. Fá sustenido pede sol; sol bemol pede fá.

A mesma tecla, escrita de dois jeitos, resolve em direções opostas, e a grafia é o que avisa o leitor de qual direção esperar. A quarta aumentada abre para fora, para a sexta; a quinta diminuta fecha para dentro, para a terça. É por isso que o trítono da dominante se escreve como quinta diminuta quando resolve na tônica: as duas notas fecham.

Na cifra

O mesmo critério vale para acordes. Numa sequência em dó maior, o acorde de passagem entre dó e ré menor escreve-se dó sustenido diminuto, não ré bemol diminuto, porque o baixo está subindo de dó para ré e a grafia deve dizer isso.

A regra prática é escrever o que deixa a sequência legível: se o baixo sobe, sustenidos; se desce, bemóis; e, em dúvida, o que a tonalidade já usa. Uma cifra com sol bemol maior no meio de uma música em mi maior está tecnicamente correta e é uma armadilha para quem lê.

O que levar daqui

Notas enarmônicas soam igual e se escrevem diferente porque o nome de uma nota diz a qual escala ela pertence e para onde ela tende. A escala decide o nome pela regra de uma letra por grau; a direção decide pelo sentido do acidente, sustenido para cima, bemol para baixo. Escolher o nome certo não muda o som: muda o quanto quem lê entende o que está acontecendo.